Crescimento Inteligente: Como supermercados podem expandir sem aumentar o tamanho da loja
- há 3 horas
- 5 min de leitura
Por décadas, a lógica de crescimento no varejo supermercadista foi linear: mais lojas, mais estoque, mais capital investido. No entanto, o cenário atual, marcado por pressões econômicas e a ascensão do digital, exige uma reavaliação dessa estratégia.
Em 2026, a expansão física pura e simples já não garante o mesmo retorno, e os líderes do setor precisam buscar novas avenidas para o crescimento.
O Fim do Crescimento por Expansão Física Tradicional
Dados recentes da National Retail Federation nos EUA indicam um crescimento projetado do varejo entre 2,5% e 3,5% ao ano, significativamente abaixo da década anterior. Na Europa, a Eurostat aponta uma desaceleração consistente nas vendas
físicas, com o crescimento migrando para canais híbridos e digitais. No Brasil, o
cenário não é diferente, com custos operacionais pressionados e a produtividade por metro quadrado estagnada.

Abrir uma nova loja hoje implica em:
• Capex Elevado: Grandes investimentos iniciais.
• Tempo de Maturação: Longo período para atingir o ponto de equilíbrio.
• Exposição Macroeconômica: Vulnerabilidade a flutuações econômicas.
• Complexidade Operacional: Aumento da dificuldade na gestão.
Empresas como Walmart, Kroger entre outras varejistas provaram que é possível
manter crescimento consistente no varejo físico sem depender exclusivamente da
abertura de novas lojas. Esses grupos de empresas passaram a usar análise avançada
de dados, automação de processos e inteligência artificial para prever a demanda
com mais precisão, reduzir rupturas, melhorar o abastecimento e aumentar a
recorrência de compra.
O Walmart, por exemplo, transformou suas lojas em centros locais de separação e
despacho de pedidos, acelerando a retirada na loja e as entregas de curta distância.

A Kroger utiliza algoritmos para ajustar o sortimento por perfil de bairro, prever
picos de consumo e reduzir perdas operacionais. Já a H-E-B construiu vantagem
competitiva ao integrar excelência operacional, conhecimento profundo do cliente local e alta eficiência logística.
O crescimento mudou de natureza: não se trata mais apenas de vender mais metros
quadrados, mas de operar melhor cada loja, cada processo e cada decisão, usando
tecnologia como meio e não como fim.
O Novo Motor: Crescimento Dentro da Base Existente
As empresas líderes do varejo alimentar estão mudando o foco do crescimento. Em
vez de investir apenas na abertura de novas lojas, concentram seus esforços em
extrair mais valor da operação atual e aprofundar o relacionamento com seus
clientes. Na prática, isso se traduz em três alavancas centrais:
1. Aumento do gasto médio por cliente
Mais do que atrair novos consumidores, o objetivo é fazer com que cada cliente
compre mais, com maior frequência e em mais categorias. Isso envolve melhorar o
sortimento, personalizar ofertas, organizar melhor as gôndolas e criar ações
comerciais mais relevantes.
2. Fidelização e relacionamento de longo prazo
O foco passa a ser manter o cliente ativo por mais tempo, aumentando sua lealdade
à marca. Programas de fidelidade, comunicação personalizada, benefícios exclusivos
e experiências consistentes elevam o valor total que esse cliente gera ao longo dos
anos.
3. Maior faturamento com a mesma área de loja
Em vez de expandir espaço físico, as redes buscam vender mais com a mesma
metragem, por meio de melhor exposição de produtos, otimização de layout, revisão
do mix e gestão inteligente de categorias.
De acordo com a McKinsey & Company, supermercados que utilizam análise
avançada de dados para definir preços, promoções e sortimento conseguem elevar
sua margem operacional entre 2 e 5 pontos percentuais, sem qualquer expansão
física. Trata-se de um crescimento estrutural, baseado em eficiência operacional,
decisões mais inteligentes e melhor uso das informações disponíveis, e não apenas
em escala.
Mídia no Varejo: a nova fonte de receita que nasce dentro da loja
O mercado de mídia dentro do varejo nos Estados Unidos deve ultrapassar US$ 60
bilhões até 2026, segundo estimativas da eMarketer. Na prática, grandes redes transformaram seus dados de clientes, fluxo de pessoas e canais digitais em espaços
qualificados de comunicação para a indústria, criando uma nova linha de receita de
alta rentabilidade.
Grandes empresas varejistas vendem visibilidade estratégica dentro de seus
aplicativos, sites, clubes de fidelidade, encartes digitais, telas nas lojas e até nos
recibos de compra, conectando marcas diretamente ao momento da decisão do
consumidor.
Para os supermercados, isso significa:
Nova margem de lucro: geração de receita adicional com custos
operacionais muito baixos.
Receita independente de volume físico: crescimento sem depender
exclusivamente de vender mais produtos.
Fortalecimento da parceria com a indústria: ações conjuntas mais
inteligentes, mensuráveis e rentáveis.
No Brasil, essa alavanca começa a ganhar escala. Redes como Carrefour Brasil, Assaí
Atacadista e Grupo Mateus já estruturam plataformas próprias de monetização de
audiência, oferecendo à indústria campanhas segmentadas, ativações em loja,
personalização de ofertas e comunicação direcionada ao perfil de compra dos
clientes.
Para os supermercados regionais, o cenário é ainda mais promissor, pois o principal
ativo já existe:
dados de clientes + fluxo nas lojas + canais digitais + relacionamento próximo
com fornecedores.
A oportunidade está em organizar esses ativos, estruturar pacotes comerciais claros
e transformar tráfego em mídia qualificada, criando uma nova linha de crescimento
recorrente, previsível e altamente rentável.
Dados Como Motor de Margem
Um relatório da Consultoria Deloitte aponta que varejistas que aplicam Inteligência
Artificial (IA) para otimização de estoque e precificação conseguem reduzir rupturas
em até 30% e melhorar significativamente o giro de inventário. Isso se traduz em:
• Menos Capital Parado: Estoques mais eficientes liberam recursos.
• Mais Eficiência Operacional: Redução de perdas e custos.
• Mais Margem de Lucro: Impacto direto na rentabilidade.
Crescer não significa apenas aumentar o faturamento bruto, mas sim expandir o
resultado final. A gestão inteligente de dados permite identificar oportunidades de
otimização que antes eram invisíveis, transformando informações em lucro.
Recorrência: A Métrica Que Muda o Jogo
Programas de fidelidade bem desenhados e inteligentes são ferramentas poderosas
para aumentar a frequência de compra e o ticket médio dos clientes. Estudos
mostram que clientes fidelizados podem gastar entre 15% e 25% mais ao longo do
ano do que clientes não engajados. E o melhor: isso pode ser alcançado sem a necessidade de abrir uma única nova loja.
A recorrência cria um ciclo virtuoso: clientes satisfeitos compram mais, indicam a loja
e se tornam embaixadores da marca, gerando um crescimento orgânico e
sustentável.
O Erro Estratégico Mais Comum
Muitos líderes ainda veem o digital e os dados como áreas de suporte, e não como
motores centrais de crescimento. Delegar o crescimento digital a uma área isolada é
limitar drasticamente o potencial da empresa.
O crescimento sem expansão física
exige um redesenho completo do modelo de negócios, com foco em:
• Integração entre Loja Física e Digital: Uma experiência de compra fluida e
omnichannel.
• CRM como Sistema Nervoso Central: Gerenciamento do relacionamento
com o cliente de forma estratégica.
• Dados como Ativo Central: Coleta, análise e uso inteligente de informações.
• Fornecedor como Parceiro Estratégico: Colaboração para otimização de
sortimento e ações de retail media.
Cinco Perguntas Que Devem Estar na Mesa Nas Reuniões de Estratégias
Se o plano de crescimento não inclui a abertura de novas lojas, ele deve ser capaz de
responder a questões cruciais:
1 Como podemos aumentar a receita por cliente ativo em 10% no próximo ano?
2 Qual é a nossa estratégia clara para monetização de dados?
3 Quanto da nossa margem de lucro atual e futura virá da eficiência inteligente
e da otimização de processos?
4 Estamos utilizando a Inteligência Artificial para impulsionar o crescimento ou
apenas para reduzir custos?
5 Se um novo player digital entrasse no mercado amanhã, quais seriam os
nossos pontos mais vulneráveis?
Crescer Não é Ficar Maior. É Ficar Mais Inteligente.
O varejo alimentar do futuro não precisa necessariamente de mais lojas. Ele precisa
de uma melhor análise de dados, maior integração com fornecedores, novas linhas
de receita e um aumento significativo do valor gerado por cliente. O crescimento
que antes exigia expansão física e altos investimentos, agora pode vir de uma
profundidade estratégica e de uma gestão mais inteligente dos recursos existentes.
A pergunta fundamental não é mais: "Quantas lojas vamos abrir?" mas sim: "Estamos
extraindo todo o valor possível das lojas que já temos?". Em 2026, crescer é sobre
modelo de negócios e inteligência, não sobre metragem quadrada.
Boa reflexão!
Luciano Morroni





