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O dilema do domingo: trabalho, operação e competitividade no varejo alimentar

Artigo de Luciano Morroni - Varejo, Produto e Estratégia | Da Indústria ao Consumidor: Estrategista de Varejo e Inovação


O varejo supermercadista brasileiro sempre foi construído sobre um princípio central: conveniência máxima para o consumidor. Abrir todos os dias, inclusive aos domingos, consolidou-se como um pilar operacional quase inquestionável do setor. No entanto, esse modelo começa a ser tensionado por mudanças profundas no ambiente regulatório, pela escassez de mão de obra e por uma crescente demanda social por jornadas de trabalho mais humanas.


6x1 trabalho operador de caixa

O debate sobre o fechamento de supermercados aos domingos deixou de ser apenas uma pauta trabalhista. Hoje, ele envolve competitividade, eficiência operacional, experiência do cliente, sustentabilidade e gestão de pessoas. Este artigo analisa o cenário brasileiro em transformação, compara experiências internacionais e aprofunda os impactos operacionais que o fechamento dominical pode gerar — além de apontar caminhos possíveis para o setor.


1. O Brasil em Transformação: Escala 6x1, Mão de Obra e Insegurança Regulatória

A discussão sobre o funcionamento do comércio aos domingos ganhou força com iniciativas legislativas e acordos coletivos que buscam revisar a forma como o trabalho é organizado no varejo. O caso mais emblemático até agora ocorre no Espírito Santo, onde um acordo entre sindicatos patronais e de trabalhadores estabeleceu o fechamento de supermercados e atacarejos aos domingos, em caráter experimental, a partir de 2026, excetuando pequenos negócios familiares sem empregados registrados.


Esse movimento está diretamente conectado ao debate nacional sobre a escala 6x1, modelo em que o colaborador trabalha seis dias consecutivos para descansar apenas um. Embora legal, essa escala tem sido cada vez mais questionada, especialmente no varejo alimentar, onde funções operacionais — como açougue, padaria, hortifrúti e frente de caixa — exigem esforço físico contínuo e elevada carga emocional.


Paralelamente, cresce no Congresso a discussão sobre propostas de redução da jornada de trabalho e revisão desse modelo. Independentemente do desfecho legislativo, o sinal é claro: o modelo tradicional está sob pressão. Para as redes supermercadistas, isso gera insegurança regulatória e dificulta o planejamento de longo prazo, exigindo uma reavaliação profunda da produtividade, das escalas e do uso da força de trabalho.


2. O Domingo no Brasil: Muito Além da Conveniência

No contexto brasileiro, o domingo não é apenas um dia de conveniência — ele possui características próprias de consumo. Embora o fluxo seja menor do que no sábado, o ticket médio costuma ser mais alto, com compras voltadas ao consumo familiar e ao abastecimento semanal.


Fechar aos domingos não significa, necessariamente, eliminar essa demanda. Parte do consumo pode ser deslocada para outros dias, mas não há garantia de absorção total, especialmente em grandes centros urbanos, onde o tempo do consumidor é um ativo escasso. O risco é a migração silenciosa para concorrentes, formatos alternativos — como atacarejos, lojas de conveniência — ou para canais digitais.


Assim, a decisão sobre abrir ou fechar aos domingos impacta diretamente a competitividade da loja e sua relevância na rotina do consumidor.


3. O Que o Mundo Já Aprendeu: Horários, Salários e Negociação

A restrição de funcionamento aos domingos não é uma exclusividade brasileira. Diversos países já enfrentaram esse dilema e adotaram modelos distintos.


Na Alemanha, a legislação impõe o fechamento da maioria das lojas aos domingos, refletindo uma forte valorização cultural do descanso semanal. Esse modelo é compensado por salários mais elevados, alto nível de previsibilidade operacional e uma cultura de compra antecipada.


Na França, a abertura dominical é permitida em zonas específicas e fortemente negociada com sindicatos, com pagamento adicional significativo. A satisfação dos colaboradores tende a ser maior quando há escolha, e não imposição.


O Reino Unido adota um modelo intermediário: abertura permitida, mas com restrição de horário, e com o direito do funcionário de recusar o trabalho dominical.


Já os países nórdicos, como Dinamarca e Suécia, operam com forte negociação coletiva. Não há salário mínimo legal, mas salários, benefícios e jornadas são definidos em acordos entre sindicatos e empresas, resultando em remuneração mais alta e maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional.


A conclusão internacional é consistente: os melhores resultados surgem quando horários, salários e escalas são negociados, não impostos.


4. O Impacto Operacional Real do Fechamento aos Domingos

Se o debate trabalhista é legítimo, o impacto operacional do fechamento dominical no varejo alimentar é imediato e concreto. O principal desafio está na gestão de perecíveis.


Produtos como frutas, legumes, verduras, pães de fabricação diária, peixes e carnes frescas são planejados para giro contínuo. Sem a venda no domingo, qualquer sobra do sábado corre o risco de ultrapassar o prazo ideal de comercialização, gerando descarte, perdas financeiras e impacto ambiental.


Para evitar esse cenário, muitas lojas adotam a chamada ruptura preventiva: reduzem produção e exposição de perecíveis a partir do fim da tarde de sábado. O problema é que o cliente que chega após as 18h ou 19h encontra gôndolas vazias, menor variedade e sensação de loja “desabastecida”.


Duas experiências consecutivas assim são suficientes para gerar desconfiança. O cliente não muda apenas o dia da compra — ele muda de loja. A loja não perde vendas no domingo fechado; ela perde confiança no sábado anterior.


5. O Efeito Cascata na Operação e na Marca

O fechamento dominical gera um efeito cascata que vai além dos perecíveis:

  • Concentração excessiva de fluxo no sábado, aumentando filas e reduzindo o conforto da compra;

  • Sobrecarga das equipes, que precisam atender picos mais intensos em menos dias;

  • Queda no NPS e na percepção de serviço, especialmente em lojas de bairro;

  • Pressão logística, com recebimentos e abastecimentos concentrados;

  • Redução da competitividade frente a formatos mais flexíveis e ao e-commerce.


Esses fatores, combinados, afetam diretamente a imagem da marca e a fidelização do cliente.

 

6. Caminhos Possíveis: Como Mitigar se o Fechamento se Tornar Regra

Caso o fechamento aos domingos avance em mais regiões, o varejo precisará responder com planejamento e inovação — não apenas com resistência.


Gestão de Sortimento e Produção

Ajustar o mix, priorizando produtos de maior vida útil, escalonar a produção da padaria e ampliar a participação de itens congelados e embalados ajudam a reduzir perdas.


Tecnologia e Previsão de Demanda

O uso de sistemas avançados de previsão, com apoio de Inteligência Artificial, permite estimar a demanda do fim de semana com maior precisão, considerando clima, eventos locais e histórico de vendas.


Promoções Inteligentes e Valorização de Sobras

Descontos progressivos no sábado à tarde, aliados ao processamento interno — como transformação de frutas maduras em sucos ou de pães em torradas — reduzem desperdícios e aumentam a rentabilidade.


Gestão de Pessoas mais Flexível

Escalas 5x2, domingos rotativos, banco de horas negociado e incentivos financeiros para sábados estendidos ajudam a equilibrar bem-estar e eficiência.


Omnicanalidade como Aliada

O e-commerce pode absorver parte da demanda do domingo, transformando esse dia em um momento de preparação logística, separação de pedidos e planejamento, e não necessariamente de venda presencial.



Luciano Morroni - Varejo, Produto e Estratégia | Da Indústria ao Consumidor: Estrategista de Varejo e Inovação | Diretor de Indústria | AgilePM®, Lean Expert™, ISO 56001| Diversity & Inclusion Specialist / DEI Specialist
Luciano Morroni - Varejo, Produto e Estratégia | Da Indústria ao Consumidor: Estrategista de Varejo e Inovação | Diretor de Indústria | AgilePM®, Lean Expert™, ISO 56001| Diversity & Inclusion Specialist / DEI Specialist

Fechamento de supermercados aos domingos não é uma decisão simples

O fechamento de supermercados aos domingos não é uma decisão simples, nem deve ser tratada como uma solução isolada para problemas estruturais do setor. Ele expõe fragilidades históricas na gestão de pessoas, no planejamento operacional e na relação entre conveniência e sustentabilidade do negócio.


Ao mesmo tempo, o debate abre espaço para uma transformação necessária. O futuro do varejo alimentar brasileiro passa por modelos mais flexíveis, negociados e orientados por dados, capazes de equilibrar eficiência operacional, satisfação dos colaboradores e conveniência para o consumidor.


O dilema do domingo, no fim, não é sobre abrir ou fechar portas — é sobre repensar como o varejo opera, compete e se sustenta no longo prazo.

 

Artigo de Luciano Morroni - Varejo, Produto e Estratégia | Da Indústria ao Consumidor: Estrategista de Varejo e Inovação

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