A Necessidade de Modernização das Centrais de Abastecimento Alimentar Brasileiras
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Por José Lourenço Pechtoll – Diretor Presidente da Ceagesp
As Centrais de Abastecimento Alimentar brasileiras cumprem um papel estratégico para o país. São infraestruturas essenciais para a segurança alimentar e nutricional, para a formação de preços, para a logística dos alimentos e para o abastecimento urbano de milhões de brasileiros. Ao conectar produção, distribuição e consumo, especialmente de alimentos frescos, as Centrais de Abastecimento - CEASAs constituem equipamentos públicos e econômicos fundamentais para o desenvolvimento nacional.
Entretanto, as transformações recentes nos sistemas alimentares, nas cadeias logísticas, nas exigências sanitárias e ambientais, e nas dinâmicas urbanas impõem novos desafios a essas estruturas. Muitos entrepostos brasileiros ainda operam com modelos concebidos há décadas, em bases administrativas, operacionais e físicas que já não respondem plenamente às exigências contemporâneas de eficiência, sustentabilidade e competitividade.
Nesse contexto, modernizar as Centrais de Abastecimento deixou de ser apenas uma agenda desejável; tornou-se uma necessidade estratégica.
Modernizar significa, em primeiro lugar, inovar na gestão. Isso implica superar modelos predominantemente burocráticos ou reativos e avançar para estruturas de governança mais profissionais, orientadas por planejamento, inteligência de mercado, indicadores de desempenho, gestão de riscos e uso intensivo de dados para apoiar decisões. As CEASAs precisam incorporar ferramentas de transformação digital, rastreabilidade, sistemas integrados de informação, plataformas eletrônicas de comercialização e instrumentos de monitoramento em tempo real dos fluxos de oferta, demanda e preços.
Também é indispensável inovar na logística. Os mercados atacadistas precisam ser concebidos cada vez mais como plataformas logísticas alimentares e não apenas espaços físicos de comercialização. Isso exige rever fluxos internos, mobilidade de cargas, armazenagem, cadeia do frio, conectividade multimodal, redução de perdas e integração com redes regionais de abastecimento. A logística eficiente é condição para reduzir custos, ampliar competitividade e garantir alimentos com mais qualidade e menor desperdício.
Outro eixo central é a modernização estrutural. Muitos entrepostos demandam requalificação física, investimentos em infraestrutura, adequações sanitárias, segurança operacional e reorganização territorial. O conceito dos mercados atacadistas de nova geração aponta justamente para equipamentos mais modernos, resilientes, digitalizados e integrados ao planejamento urbano e regional. Experiências internacionais como Mercasa, SEMMARIS e Italmercati mostram que a modernização dos mercados atacadistas pode impulsionar produtividade, inovação e desenvolvimento territorial.
Mas talvez nenhuma agenda seja tão incontornável quanto a sustentabilidade. As CEASAs precisam se afirmar como infraestruturas estratégicas para a transição ecológica dos sistemas alimentares. Isso envolve gestão eficiente da água e energia, economia circular, manejo de resíduos sólidos, redução de emissões, combate ao desperdício de alimentos e ampliação de práticas alinhadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Sustentabilidade, nesse sentido, não é apenas agenda ambiental; é também eficiência econômica e compromisso social.
Modernizar as Centrais de Abastecimento significa, ainda, fortalecer sua contribuição para políticas públicas. Esses mercados podem ser plataformas fundamentais para apoiar agricultura familiar, circuitos curtos de comercialização, programas públicos de abastecimento, combate à fome e regulação dos sistemas alimentares urbanos. Mais do que entrepostos comerciais, podem ser reconhecidos como infraestruturas estratégicas de soberania alimentar.
Por isso, ganha força a ideia de promover uma transição para “CEASAs de 4ª geração”: mercados orientados por inovação, inteligência, logística avançada, sustentabilidade, governança moderna e integração territorial. Trata-se de reposicionar essas estruturas para responder aos desafios do presente e antecipar demandas do futuro.
Essa agenda requer investimentos, novos modelos de financiamento, cooperação institucional e uma visão nacional para a modernização do sistema brasileiro de abastecimento. Exige articulação entre governos, operadores de mercados, organismos internacionais, setor produtivo e sociedade.
O desafio é grande, mas a oportunidade é ainda maior.
Modernizar as Centrais de Abastecimento brasileiras não é apenas atualizar equipamentos ou processos. É fortalecer a infraestrutura do abastecimento alimentar do país, reduzir vulnerabilidades, ampliar eficiência, promover desenvolvimento e garantir que esses mercados continuem cumprindo, com inovação e sustentabilidade, sua função estratégica para o Brasil.
O futuro do abastecimento passa pela modernização das Centrais de Abastecimento – Ceasas.
Sobre José Lourenço Pechtoll

Diretor Presidente
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E-mail: jose.pechtoll@ceagesp.gov.br
Pós-Graduado em Agronegócio pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, Pós-Graduado em Agroecologia pela FAO/RED-CAPA, Pós Graduado em Gestão Pública pela FAAP- Fundação Armando Álvares Penteado, Pós Graduado em Comunicação Social e formado em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, Formado em Filosofia pela FAI- Faculdades Associadas do Ipiranga. Atuou na CEAGESP de 2003 a 2016, nos cargos de Assessor da Presidência, Coordenador de Planejamento e Ouvidoria e Gerente do Departamento de Armazenagem. Foi Diretor da CRAISA – Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André (1997 a 2000), empresa na qual atuou, também, no gerenciamento de equipamentos de abastecimento alimentar de 1989 a 1992. Membro dos Projetos “Bota na Mesa” e “Converte-se: Promovendo a conversão à produção pela à produção orgânica pela agricultura familiar”, ambos realizados pela FGVcess, respectivamente, de 2015/2019 e de 2021/2022. Redator do Plano Nacional de Abastecimento Alimentar – 2013 (Portaria MAPA 1.037 de 09/11/2012 e Portaria MAPA 1.090 de 28/11/2012), Redator do Manual de Boa Práticas das Centrais de Abastecimento CEASAS (2014), membro da ABRAPÓS – Associação Brasileira de Pós Colheita de 2010-2016 e Assessor Técnico da ABCAO Associação Brasileira de Companhias Armazenadoras Oficiais (2010/2017).
José Lourenço Pechtoll – Diretor Presidente da Ceagesp – 28/04/2026.





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