Curva ABC no supermercado: como identificar os produtos que realmente sustentam as vendas
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A Curva ABC é uma ferramenta de gestão que organiza os produtos de acordo com sua importância para o resultado do supermercado. Ela ajuda a identificar quais itens concentram a maior parte das vendas, quais possuem desempenho intermediário e quais representam uma participação menor no faturamento.
Com essa análise, o gestor consegue melhorar compras, estoque, exposição, negociação com fornecedores e prevenção de rupturas. Entretanto, a classificação não deve considerar somente faturamento. Margem, giro, perdas, sazonalidade e importância do produto para o cliente também precisam entrar na decisão.
O que é Curva ABC?
A Curva ABC classifica os produtos em três grupos:
Classe A: itens responsáveis pela maior parcela do resultado analisado;
Classe B: produtos de importância intermediária;
Classe C: itens que possuem menor participação individual no resultado.
Os percentuais podem variar conforme a empresa, mas uma divisão utilizada como referência é:
Classe | Participação acumulada aproximada | Característica |
A | Até 70% ou 80% | Produtos de maior importância |
B | Faixa seguinte de 15% a 20% | Produtos intermediários |
C | Parcela restante | Itens de menor participação |
Essa classificação não significa que somente os produtos A sejam importantes. Um item C pode completar a cesta, atender um público específico ou apresentar uma margem interessante, mesmo vendendo menos.

Para que serve a Curva ABC no supermercado?
Um supermercado pode trabalhar com milhares de SKUs. Dar a mesma atenção a todos eles torna a gestão mais lenta e menos eficiente.
A Curva ABC permite concentrar esforços onde o impacto é maior. Ela pode ser utilizada para:
Priorizar produtos nas compras;
Reduzir rupturas;
Organizar inventários;
Ajustar estoques mínimos;
Revisar o mix;
Distribuir espaços nas gôndolas;
Planejar promoções;
Negociar com fornecedores;
Identificar itens de baixo giro;
Proteger o capital de giro.
A ferramenta ajuda o gestor a enxergar que nem todos os produtos possuem o mesmo peso sobre o resultado da loja.
Como calcular a Curva ABC?
O cálculo pode ser feito em uma planilha ou diretamente no sistema de gestão.
1. Defina o objetivo da análise
Primeiro, escolha o que será avaliado.
A Curva ABC pode classificar os produtos por:
Faturamento;
Quantidade vendida;
Margem bruta;
Lucro gerado;
Valor do estoque;
Número de clientes compradores;
Frequência de venda.
Uma curva baseada em faturamento pode apresentar uma classificação diferente daquela baseada em margem. Por isso, o objetivo precisa estar claro.
2. Escolha o período
Para uma análise geral, podem ser utilizados os últimos três, seis ou doze meses.
Em categorias sazonais, o período precisa ser ajustado. Panetones, ovos de Páscoa, materiais escolares, bebidas de verão e produtos para festas juninas não devem ser avaliados como itens de consumo regular.
3. Organize os produtos do maior para o menor
Depois de calcular o resultado de cada SKU, organize a lista em ordem decrescente.
O produto com maior participação aparece primeiro. Em seguida, entram os demais produtos até completar 100% do resultado analisado.
4. Calcule a participação de cada item
Fórmula:
Participação do produto = resultado do produto ÷ resultado total × 100
Se um produto faturou R$ 20 mil e o total analisado foi de R$ 100 mil, sua participação foi de 20%.
5. Calcule o percentual acumulado
O percentual acumulado mostra quanto os produtos representam quando somados, começando pelo item de maior resultado.
Essa soma permite separar os grupos A, B e C.
Exemplo prático
Considere uma análise simplificada de algumas famílias de produtos:
Produto ou família | Faturamento | Participação | Acumulado | Classe |
Arroz | R$ 22.000 | 22% | 22% | A |
Carne bovina | R$ 18.000 | 18% | 40% | A |
Cerveja | R$ 15.000 | 15% | 55% | A |
Leite | R$ 12.000 | 12% | 67% | A |
Refrigerantes | R$ 10.000 | 10% | 77% | A |
Higiene pessoal | R$ 8.000 | 8% | 85% | B |
Biscoitos | R$ 6.000 | 6% | 91% | B |
Produtos de limpeza | R$ 4.000 | 4% | 95% | B |
Temperos especiais | R$ 3.000 | 3% | 98% | C |
Produtos de nicho | R$ 2.000 | 2% | 100% | C |
O exemplo serve apenas para demonstrar o cálculo. Na prática, a análise deve ser realizada por SKU, categoria, setor e loja.
Como administrar os produtos da Classe A?
Os produtos A exigem acompanhamento rigoroso porque representam grande parte do resultado.
As principais ações são:
Conferir o estoque com mais frequência;
Evitar rupturas na gôndola;
Manter mais de uma opção de fornecedor;
Revisar preços e margens;
Garantir exposição adequada;
Acompanhar promoções dos concorrentes;
Verificar divergências entre estoque físico e sistema;
Planejar compras conforme a demanda;
Controlar perdas e vencimentos.
Uma ruptura em um item A pode provocar um impacto muito maior do que a falta de um produto com baixa participação.
Além da venda perdida, o cliente pode substituir o produto, reduzir sua compra ou procurar outro supermercado.
O que fazer com os produtos da Classe B?
Os itens B possuem desempenho intermediário e podem representar boas oportunidades de crescimento.
O gestor pode analisar:
Se o produto precisa de mais exposição;
Se o preço está competitivo;
Se existem marcas demais na categoria;
Se uma promoção pode aumentar o giro;
Se o item possui potencial para entrar na Classe A;
Se o estoque está adequado;
Se existe oportunidade de cross merchandising.
Produtos B não devem ser administrados de maneira automática. Alguns podem crescer com pequenas mudanças de preço, exposição ou abastecimento.
Todo produto C deve ser retirado do mix?
Não. Esse é um dos erros mais comuns na utilização da Curva ABC.
Um produto C pode ter funções importantes:
Atender uma necessidade específica;
Completar uma receita;
Diferenciar o supermercado;
Atrair consumidores de determinado perfil;
Apresentar margem elevada;
Fazer parte de uma linha premium;
Ser importante em certas épocas do ano;
Completar o sortimento de uma categoria;
Atender pedidos recorrentes de clientes fiéis.
Antes de retirar um item, o gestor deve verificar giro, margem, prazo de validade, número de compradores e importância estratégica.
A pergunta não deve ser apenas “quanto esse produto vende?”, mas também “qual função ele cumpre dentro do mix?”.
Curva ABC de faturamento não é Curva ABC de lucro
Um produto pode faturar muito e gerar pouco resultado. Outro pode vender menos, mas entregar uma margem superior.
Por isso, é recomendável trabalhar com diferentes análises:
Curva ABC de faturamento
Mostra quais produtos concentram as vendas.
Curva ABC de margem
Identifica os itens que mais contribuem para a margem bruta.
Curva ABC de estoque
Mostra onde está concentrado o capital investido.
Curva ABC de perdas
Identifica os produtos que mais geram quebras, vencimentos ou desperdícios.
Curva ABC de clientes
Aponta os itens comprados por um número maior de consumidores.
Quando essas análises são cruzadas, a tomada de decisão se torna muito mais segura.
Um item A pode ser ruim para o supermercado?
Sim. Um produto pode estar na Classe A de faturamento e, ao mesmo tempo, apresentar margem baixa, estoque excessivo ou alto índice de perdas.
Imagine um item vendido em grande quantidade durante uma promoção. O faturamento aumenta, mas os descontos, custos logísticos, perdas e despesas com divulgação podem reduzir o resultado.
Por isso, estar na Classe A não significa automaticamente ser o produto mais lucrativo.
Faça a análise por loja
Redes supermercadistas não devem aplicar uma única classificação para todas as unidades.
Um produto pode ser Classe A em uma loja e Classe C em outra devido a diferenças de:
Perfil dos clientes;
Localização;
Poder de compra;
Concorrência;
Tamanho da loja;
Hábitos regionais;
Espaço disponível;
Formato de atendimento.
Cada loja precisa ter um mix ajustado à sua realidade.
Uma classificação geral da rede pode ajudar nas negociações, mas não deve substituir a análise individual.
Como a Curva ABC ajuda nas compras?
O setor de compras pode utilizar a classificação para definir prioridades.
Nos itens A, é necessário:
Acompanhar vendas diariamente;
Projetar demanda;
Negociar abastecimento contínuo;
Trabalhar com estoque de segurança;
Verificar ações promocionais;
Evitar dependência de um único fornecedor.
Nos itens B, o foco pode estar em desenvolvimento, negociação e ajuste do giro.
Nos itens C, a compra deve ser mais cuidadosa, evitando lotes maiores do que a demanda e prazos incompatíveis com a velocidade de venda.
Comprar barato não é vantagem quando a mercadoria permanece parada, ocupa espaço e consome capital de giro.
Curva ABC e inventário rotativo
A classificação também ajuda a organizar as contagens de estoque.
Uma possibilidade é:
Produtos A: contagens mais frequentes;
Produtos B: contagens intermediárias;
Produtos C: contagens menos frequentes, sem deixar de controlar;
Itens com alto risco de perdas: frequência adicional, independentemente da classe.
Essa organização melhora a acuracidade do estoque e permite que a equipe concentre atenção nos produtos mais relevantes.
Curva ABC e espaço de gôndola
O espaço não deve ser definido apenas pela quantidade de marcas disponíveis.
Produtos com alto giro precisam de uma exposição compatível com sua demanda. Se um item A recebe pouco espaço, a gôndola pode ficar vazia mesmo quando existe mercadoria no depósito.
Por outro lado, destinar muitas frentes para produtos de baixo giro pode reduzir a produtividade do espaço.
A decisão precisa considerar:
Venda por metro linear;
Margem;
Frequência de reposição;
Tamanho da embalagem;
Importância da categoria;
Perfil do cliente;
Estratégia comercial.
O objetivo é fazer com que cada espaço da loja contribua para vendas, conveniência e rentabilidade.
Principais erros ao utilizar a Curva ABC
Analisar apenas faturamento
Venda alta não garante lucro.
Retirar automaticamente produtos C
Itens de menor volume podem completar o mix ou gerar diferenciação.
Utilizar dados desatualizados
Mudanças de preço, hábitos e concorrência alteram a classificação.
Ignorar a sazonalidade
Um item pode parecer de baixo giro fora do período de maior demanda.
Misturar lojas diferentes
Cada unidade possui características próprias.
Desconsiderar promoções
Campanhas pontuais podem distorcer o histórico.
Trabalhar com cadastros incorretos
Produtos duplicados, códigos errados e unidades de medida inconsistentes comprometem a análise.
Não transformar o relatório em ação
A Curva ABC só gera resultado quando orienta compras, estoque, exposição e negociação.
Tecnologia pode automatizar essa análise
Um ERP especializado em supermercados pode calcular a classificação por produto, loja, setor, categoria e período.
Plataformas de inteligência para abastecimento também podem cruzar a Curva ABC com:
Previsão de demanda;
Ruptura;
Estoque virtual;
Giro;
Cobertura;
Sazonalidade;
Promoções;
Margem;
Prazo de validade.
Com informações atualizadas, o gestor deixa de analisar apenas o passado e passa a antecipar necessidades de compra e reposição.
A tecnologia, entretanto, depende da qualidade dos cadastros, inventários e processos operacionais.
Com que frequência atualizar a Curva ABC?
A frequência depende da dinâmica da categoria.
Uma recomendação prática é:
Acompanhamento mensal para o mix geral;
Revisão semanal dos produtos mais importantes;
Análise antes e depois de campanhas promocionais;
Revisão específica para datas sazonais;
Comparação trimestral por loja e categoria.
Setores como açougue, padaria e hortifrúti podem exigir análises mais frequentes devido ao giro, produção diária e risco de perdas.
Perguntas frequentes
O que significa produto Classe A?
É um produto que está entre os itens de maior importância para o critério analisado, como faturamento, margem ou quantidade vendida.
Produto Classe A é sempre o mais lucrativo?
Não. Ele pode vender muito e apresentar margem reduzida. Por isso, faturamento e lucro devem ser analisados separadamente.
Produtos C devem ser eliminados?
Não automaticamente. Primeiro, analise margem, giro, importância para o cliente, sazonalidade e função dentro do mix.
A Curva ABC funciona em supermercados pequenos?
Sim. Ela é especialmente útil para negócios com capital de giro limitado, pois ajuda a priorizar compras e reduzir estoque parado.
É melhor calcular por produto ou por categoria?
Os dois níveis são importantes. A análise por categoria oferece uma visão estratégica, enquanto a análise por SKU orienta compras, estoque e reposição.
Qual período deve ser utilizado?
Depende do objetivo. Três meses podem mostrar o comportamento recente, enquanto doze meses ajudam a visualizar sazonalidades. O ideal é comparar períodos.
Transforme dados em decisões práticas
A Curva ABC permite que o supermercadista identifique onde estão concentradas as vendas, a margem, o estoque e as perdas.
Mais do que classificar produtos, ela ajuda a definir prioridades. Mostra quais itens precisam de disponibilidade constante, quais possuem potencial de crescimento e quais exigem revisão.
O supermercado não precisa necessariamente ter o maior mix. Precisa ter o mix certo para seu público, com estoque adequado, boa margem e produtos disponíveis quando o cliente deseja comprar.
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