Fim das Promessas, Início da Operação: O Varejo Alimentar em 2026
- Fabiano Polese
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Por Luciano Morroni
Se você esteve na NRF ou na EuroShop em 2024, deve se lembrar das promessas: lojas totalmente autônomas, drones entregando alface na janela do cliente e o metaverso substituindo a ida ao supermercado. Pois bem, estamos em meados de 2026. Olhe para o seu chão de loja agora. O que você vê? Eu vejo a Dona Maria reclamando do preço do azeite e o repositor correndo para cobrir um buraco na gôndola de laticínios.
A fumaça do hype baixou e o que restou foi a realidade crua e dura da operação. E, honestamente? Graças a Deus.
Nestes últimos 30 anos de varejo, vi muita “revolução” virar pó. Mas o cenário de 2026 é diferente. A inovação na indústria de alimentos finalmente parou de tentar ser um filme de ficção científica e começou a focar no que paga as contas: eficiência operacional, giro e margem.
Vamos dissecar o que realmente está acontecendo no setor e focar no que realmente impacta diretamente o seu EBITDA. (O que sobra)
O Efeito Ozempic e a Morte do Volume
Lembra quando o sucesso era medido por carrinhos transbordando? Esqueça. A disseminação massiva dos medicamentos GLP-1 (os “Ozempics” da vida) mudou a geometria do consumo. O cliente de 2026 come menos. Ponto.
Consultores passaram anos defendendo o aumento do ticket médio via volume. Hoje, a batalha é pelo valor nutricional. O consumidor que usa supressores de apetite precisa de densidade nutricional para não perder massa muscular.
O resultado prático na gôndola? A seção das “calorias vazias” encolheu, enquanto o espaço para proteínas e alimentos funcionais triplicou.
Para o varejista, isso é um pesadelo logístico e uma bênção de margem. Vendemos menos itens, mas itens com valor agregado muito maior. O layout da loja mudou. As pontas de gôndola deixaram de ser dominadas por promoções de “leve 3, pague 2” de refrigerante e passaram a destacar snacks proteicos e produtos de rótulo limpo.
Quem não entendeu que o jogo virou de volume para valor está com estoque parado e capital de giro comprometido.

A “Carne do Futuro” Encontrou o Bolso do Presente
A chamada “batalha das proteínas”, que dominou as manchetes há alguns anos, chegou a um cessar-fogo interessante. A carne cultivada em laboratório e as proteínas plant-based finalmente pararam de tentar salvar o mundo no discurso e começaram a tentar salvar o bolso do consumidor.
Em 2026, a Dona Maria não compra hambúrguer vegetal porque quer abraçar uma árvore. Ela compra se for gostoso e se o preço competir com a carne moída de segunda.
A inovação real aqui foi o hibridismo. A indústria abandonou o purismo e passou a combinar tecnologias como fermentação de precisão com ingredientes vegetais para chegar à textura e ao sabor desejados.
Mas, como varejista, fica o alerta: cuidado com o SKU inútil. A prateleira não é elástica. Produtos de baixo giro, por mais inovadores que pareçam, são câncer para a operação.
A indústria aprendeu, muitas vezes na dor, que precisa testar rápido e falhar rápido, usando plataformas sérias de gestão da inovação, em vez de empurrar “novidades” goela abaixo do varejo via trade marketing.
A Verdade sobre a IA: Ninguém Vê, Mas o Caixa Agradece
Enquanto a mídia falava de robôs humanoides, a verdadeira inteligência artificial entrou pela porta dos fundos: no Centro de Distribuição e na previsão de demanda.
A maior dor de cabeça de qualquer gerente de loja sempre foi a ruptura (não ter o produto) e a quebra (ter o produto e ele estragar). Em 2026, a integração entre agricultura de precisão e sistemas preditivos finalmente começou a funcionar de verdade.
Hoje, não é mais o gerente que “pede” o tomate. O sistema sabe que vai chover na região produtora, que o caminhão vai atrasar duas horas e que a demanda por sopa vai aumentar na sexta-feira fria. O pedido é automático. Isso é inteligência sistêmica.
No chão de loja, o impacto é simples: menos ruptura e menos lixo no final do dia.
A sustentabilidade deixou de ser discurso de relatório ESG para virar indicador de eficiência. Desperdício de energia, água e produto é dinheiro jogado fora. Lojas e fábricas usando sensores IoT para monitorar refrigeração e iluminação não fazem isso por altruísmo, fazem porque a margem líquida do setor continua apertada, entre 2% e 3%. Qualquer ganho na conta de energia vira lucro direto.
O Novo “Corredor Étnico” é a Loja Toda
Outra tendência que saiu do nicho e virou mainstream é a comida multicultural. Com o crescimento de um consumidor mais globalizado, e mais entediado, o antigo “corredor de importados” explodiu e tomou a loja inteira.
Não se trata apenas de ter molho de soja na prateleira. Redes inteiras estão se especializando em sabores globais, enquanto os grandes varejistas correm para não ficar para trás.
A demanda por sabores autênticos e ousados obrigou a indústria de bens de consumo a sair do básico. Se o seu mix ainda parece o de 2015, você está perdendo a Geração Z e os Millennials, que enxergam comida como experiência, não apenas como combustível.
Gestão da Inovação: O Fim do “Achismo”
Nos relatórios de mercado, a palavra “colaboração” aparece o tempo todo. Na prática, isso significa o fim da era em que o diretor de compras decidia o mix com base no gosto pessoal.
As empresas vencedoras em 2026 são aquelas que usam plataformas digitais para ouvir o chão de loja. O repositor sabe o que o cliente pede e não encontra. O açougueiro sabe qual corte está encalhando.
Ferramentas que capturam essas informações e as transformam em decisões estruturadas deixaram de ser luxo de multinacional.
O ciclo de vida dos produtos encurtou drasticamente. Se você leva dois anos para lançar um novo iogurte, quando ele chega à gôndola a tendência já passou. Agilidade e processos claros de Stage-Gate são a única forma de inovar sem queimar caixa.
O Retorno do Humano (Onde Importa)
A maior ironia de 2026 é esta: com tanta automação no back-office, CDs robotizados e caixas de autoatendimento que finalmente funcionam, o diferencial competitivo voltou a ser o humano especializado.
O cliente aceita comprar papel higiênico e detergente sem interação. Mas, na hora de escolher um corte premium de carne ou um vinho para o jantar — que ele consome menos, porém com mais qualidade —, ele quer falar com alguém que entenda.
O dinheiro economizado com automação de tarefas repetitivas está sendo direcionado para treinar açougueiros, padeiros e especialistas. A tecnologia resolveu a chatice operacional para liberar o humano para a venda consultiva.
Conclusão: Trabalhar no Varejo Sempre foi um desafio Mas em 2026 se tornou um jogo de sobrevivência!
O varejo alimentar em 2026 vive uma complexidade brutal: mudanças climáticas afetando o FLV, impostos de todos os lados, inflação....... e um consumidor hiper-informado, com o smartphone na mão, sabendo mais sobre a origem do produto do que muitos vendedores.
Ainda assim, para quem tem “barriga no balcão”, este é um momento fascinante. A inovação deixou de ser pirotecnia e virou ferramenta de sobrevivência.
Cultura a ser implementada na empresa: pare de procurar a próxima big thing. Olhe para sua ruptura, para sua quebra, para sua fila e para o banheiro dos clientes. Use tecnologia para resolver o básico de forma impecável.
Porque em 2026, não haverá espaço para erro.
Boa Reflexão.











